Mesmo quem não presta muita atenção nos rótulos, já deve ter percebido a crescente oferta de produtos sem glúten nos supermercados e nas lojas de suplementos. A maior divulgação sobre a doença celíaca e o aumento no número de pessoas diagnosticadas com o problema, obrigou a indústria de alimentos a criar alternativas para quem não pode comer essa proteína. Mas, em vez de apenas orientar os celíacos, a informação em destaque nas embalagens parece ter gerado uma desconfiança generalizada em relação ao glúten.

Recentemente, participei de uma reunião com executivos de uma grande empresa de suplementos alimentares, onde discutimos a adequação de um produto para relançamento no mercado. Segundo o diretor da empresa, o produto não teve boa aceitação por conter glúten.

Suas palavras foram: “Rodolfo, a frase “contém glúten” praticamente determina o insucesso do produto no mercado, já que as pessoas estão com aversão ao glúten”.
Lactose, caseína, glúten, soja, entre outros nutrientes, são tidos como vilões da alimentação por muitas pessoas. Basta alguém com um bom relacionamento nas redes sociais postar algo condenando algum deles e pronto: a pessoa que come pão com manteiga no café da manhã e coxinha com refrigerante no lanche da tarde, joga fora seu suplemento porque nele está escrito: “contém glúten”, sem saber que o nutriente está em quase tudo que ela consome.

O glúten é uma proteína encontrada em quase todos os alimentos com trigo, centeio, aveia, cevada e malte. Está presente na maioria dos pães, bolos, macarrão, bolachas, coxinhas e até na cerveja. A doença celíaca ainda é o único problema de saúde que exige a retirada total do glúten da alimentação. Os celíacos – como são chamadas as pessoas que têm intolerância ao glúten – não produzem a peptidase, enzima responsável pela quebra dessa proteína. Para eles, o glúten é um veneno. Ele ataca as paredes do intestino delgado, dificultando a absorção de nutrientes e provocando sintomas como inchaço abdominal, diarreia, perda de peso, anemia, entre outros. Em alguns casos, a doença não tem nenhum sintoma – o que dificulta o diagnóstico. Para os celíacos, abrir mão de salgados, doce, bolachas e pães é uma necessidade.

Não há comprovação científica de que o glúten tenha influência nos quadros de autismo, mas um número considerável de crianças com o transtorno tem se beneficiado com uma dieta sem glúten e caseína. Grande parte dos autistas apresenta uma deficiência enzimática que inibe a digestão completa de proteínas presentes no leite e no glúten, o que pode levar a formação de uma grande quantidade de fragmentos de proteínas no intestino, chamados peptídeos, que agem no sistema nervoso central como uma droga, intensificando sintomas como a falta de concentração, isolamento e irritabilidade.

Agora, quem elimina o glúten só pensando em melhorar sua composição corporal, muito provavelmente vai perder peso por ter deixado de comer alimentos ricos em carboidratos. O glúten não engorda, nem provoca inchaço. Está longe de ser uma nova gordura trans ou algo que deve ser evitado por toda a população. Por outro lado, não podemos ignorar que muitas pessoas estão, sim, tendo uma sobrecarga de glúten e uma maior sensibilidade a essa proteína. O excesso do consumo do glúten pode irritar a mucosa intestinal que, com o tempo, identificará a proteína como nociva para o corpo. Portanto, mais uma vez, é o equilíbrio que deve ser prioridade! A melhor dieta não é a sem glúten, dieta detox, dieta sem lactose, etc. Toda dieta deve ser individualizada, ou seja, ajustada de acordo com a fase da vida, nível de atividade física, tolerâncias e intolerâncias de cada um. Para isso, existe o nutricionista. Busque sempre um profissional apto para adequar sua alimentação. Viva em dieta, viva melhor!

Rodolfo Peres é nutricionista especialista em nutrição esportiva. Atende desde atletas de alto nível a pessoas que simplesmente buscam uma melhor qualidade de vida.