Enquanto parte do Brasil ainda tem fome, outra reproduz hábitos alimentares não saudáveis, provocando uma epidemia comum em países ricos. Dados do Ministério da Saúde revelam que, pela primeira vez, o percentual de pessoas com excesso de peso supera mais da metade da população brasileira. A pesquisa Vigitel 2012 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) mostra que 51% da população (acima de 18 anos) está acima do peso ideal e 17,4% é obesa. Em 2006, quando os dados começaram a ser coletados, 43% da população tinha sobrepeso e 11,4% era obesa. O aumento atinge tanto a população masculina quanto a feminina. Atualmente, 18% das mulheres estão obesas. Entre os homens, 16%.

 

Se o Brasil apresenta esse grande contingente de pessoas acima do peso, o índice é maior entre as classes C e D. Uma série de fatores faz com que as pessoas, cujo gasto com alimentação até pouco tempo pesava no orçamento, hoje estejam acima do peso. Grande parte da população passou da desnutrição à obesidade porque teve acesso a uma grande quantidade de comida barata (e ruim), industrializada, cheia de gorduras e açúcar. Trocou a bicicleta pela moto/carro e conquistou comodidades dentro de casa que não foram compensadas por outras atividades físicas.

 

Todos sabem que a obesidade pode resultar em sérios problemas de saúde e, ainda assim, muitos continuam focados em resultados estéticos em vez de nos riscos à saúde. Este ano, a Associação Médica Americana finalmente rotulou obesidade como uma doença, e não apenas como fator de risco para outras enfermidades. A organização reconheceu que a obesidade é uma doença comprovável que merece muito mais atenção do que os médicos, pacientes e planos de saúde atualmente dão. Mas, independentemente de fatores sociais e econômicos, por que as pessoas estão engordando tanto? De onde vem esse desespero pela comida e a dificuldade para perder peso?

Sabe-se hoje que as pessoas engordam não apenas porque comem demais. Garantir reservas de gordura é umas coisas que o nosso organismo melhor sabe fazer, mesmo quando estocadas em quantidades excessivas. O corpo humano tende a sempre defender o maior peso que já atingiu. A mais insignificante tentativa de reduzi-las é interpretada pelo cérebro como ameaça à integração física. É por que isso acontece? Nossos antepassados tinham grande dificuldade para conseguir alimentos. A possibilidade de estocá-los é contemporânea ao advento da agricultura, há dez mil anos, um segundo em termos evolucionistas. Essa carência alimentar moldou o cérebro humano de tal maneira, que ele busca obter o máximo de calorias possível para mobilizar energia acumulando-a sob a forma de gordura que, teoricamente, será usada nos períodos de fome provocados pela escassez de comida.

 

O problema é que hoje a nossa realidade é bem diferente. As geladeiras podem conservar alimentos por dias, semanas. Basta uma ligação telefônica para temos comida de baixa qualidade entregue, em poucos minutos, na porta das nossas casas. Comidas prontas de preparo rápido, cheias de sódio e carboidratos, também caíram na preferência de muitas famílias. Nosso cérebro agora encontra fartura e o mecanismo evolucionista, que selecionou pessoas capazes de acumular gordura se volta contra elas. Reverter esse processo não é nada fácil.

 

É importante salientar que, embora existam diversos programas radicais de dieta para perda de peso, não há necessidade de passar fome ou se privar de alimentos saborosos para se alcançar o seu objetivo. Creio que uma dieta bem programada não deve permitir que a pessoa elimine mais do que 0.8 – 1.5 Kg de peso corporal por semana. Perda ponderal muito rápida e elevada não só coloca em risco a saúde do indivíduo como provoca significativa perda de massa muscular.

 

Só que a ânsia por resultados rápidos tem levado muita gente, com “apenas” 25, 30 quilos acima do ideal, a se submeter aos riscos da redução de estômago, quando outros métodos – atividade física, mudança de hábitos e dieta balanceada – poderiam dar conta do recado. A lei do menor esforço, nesse caso, torna-se perigosa demais. Os benefícios da cirurgia só superam os riscos quando ela é indicada por um médico responsável. Portanto, não deve ser banalizada

 

O controle do avanço da obesidade é bastante complexo e necessita de ações que envolvam desde modificações na agricultura, que possibilitem maior oferta de alimentos saudáveis, até mudanças no planejamento urbano, capazes de estimular a prática regular de atividade física nas cidades. Medidas fiscais que tornem mais acessíveis os alimentos saudáveis e menos acessíveis os alimentos não saudáveis são indispensáveis, assim como medidas regulatórias que disciplinem os limites para a publicidade de alimentos, proibindo completamente a propaganda dirigida a crianças. Em resumo, controla-se a obesidade apoiando, protegendo e promovendo práticas de vida saudáveis. Viva em dieta, viva melhor!