Rodolfo Peres – nutricionista esportivo – CRN3 16389

Analisando a evolução da indústria da suplementação alimentar, nas últimas décadas, podemos ter diferentes pontos de vista. De um lado, é incrível o volume de publicações científicas desmistificando crenças antigas e apresentando novas aplicabilidades. Por outro, é igualmente incrível a desinformação das pessoas e o oportunismo de certas empresas que empurram para o consumidor produtos sem qualquer tipo de funcionalidade, mas com uma ótima margem de lucro.

Com a internet, especialmente as redes sociais, qualquer um pode se apresentar como especialista na área. Uma pessoa sem qualquer tipo de conhecimento técnico científico, mas com um grande número de seguidores, consegue atingir muito mais pessoas do que um verdadeiro especialista do assunto, que só é conhecido no meio acadêmico. Isso vem dificultando a vida de profissionais que se esforçam para divulgar informação de qualidade.

Há anos viajo o Brasil todo palestrando. Em cada palestra consigo reunir entre 300 e 600 pessoas, salvo em grandes eventos que podem ultrapassar 1.000 inscritos. Ainda assim, o alcance dessas palestras é infinitamente menor do que o das redes sociais. Um gigantesco público conectado acredita nas dicas (patrocinadas pela indústria) que as (os) blogueiras (os) fitness despejam na internet todos os dias, e gasta até o que não tem em busca daqueles corpos perfeitos. Com o aumento exponencial de nutricionistas, vejo pessoas sendo bem orientadas, tanto na alimentação quanto no uso de suplementos alimentares, mas a grande maioria da população, independentemente da classe social, segue desinformada, comprando suplementos ineficazes e sem relação com seus objetivos. Houve avanços, sim, mas temos ainda um longo trabalho pela frente.<
As pessoas ainda veem a suplementação alimentar como algo direcionado para um fim específico. Por exemplo, querem saber se whey protein aumenta massa muscular; se o óleo de coco emagrece; se o colágeno melhora a qualidade da pele; se a vitamina C melhora a imunidade, etc., ou seja, não enxergam a suplementação como complemento de uma rotina de alimentação associada à atividade física.

Eu sempre brinco que a whey protein pode aumentar a massa muscular assim como a banana ou a carne de frango ou bovina. Que tudo dependerá da rotina alimentar de cada um. Por exemplo, se o indivíduo já ingere a quantidade de proteínas necessária por meio de alimentos proteicos como ovos, frango, peixes e carnes, a suplementação com whey protein não ajudará em nada. Da mesma forma, alguém com dificuldade na ingestão de proteínas, seja por falta de disponibilidade desses alimentos, paladar, apetite ou outro fator, a suplementação com whey protein ou outro pó proteico de qualidade, pode fazer toda a diferença. A pessoa pode não precisar de suplementação com proteínas em pó, mas pode ter uma deficiência de vitamina D ou outro micronutriente, que esteja atrapalhando a conquista de seus objetivos. Ou então, uma suplementação com creatina visando melhora da força no treinamento, ou dependendo da periodização e tipo do treinamento, a beta-alanina possa ser um ótimo recurso para melhorar a resistência. Pode não ser nada disso. A pessoa precisar de um suporte de carboidratos antes ou pós treino, ou ainda BCAAS e glutamina para melhorar a recuperação. Poucos sabem, mas ácidos graxos ômega 3 podem melhorar a síntese de proteínas, otimizar a recuperação, sendo portanto uma ótima suplementação para ganho de massa muscular, além das várias aplicabilidades no que diz respeito à melhora da saúde. Estimulantes do sistema nervoso central, como a cafeína e teacrina e potencializadores colinérgicos, como aswagandha, Rhodiola rosea, alpha gpc, citicolina, fosfatidilserina, entre outros, quando usados nos momentos corretos e respeitando a tolerância de cada um, podem otimizar (e muito) a capacidade cognitiva e o treinamento. Assim, você poderá não só treinar com maior intensidade como também melhorar seu rendimento no trabalho e/ou estudos.

Muitos pais me perguntam sobre suplementação para crianças (no caso de esportistas). Eles têm receio de dar aos filhos um suporte de carboidratos, proteínas, creatina, ômega 3, vitaminas e minerais específicos, ou qualquer outra suplementação para melhorar o rendimento esportivo da criança e/ou adolescente. Apesar dessa resistência, acham normal oferecer aos filhos salgadinhos, refrigerantes e outras porcarias tão normalmente consumidas pelas crianças de hoje em dia. Ainda hoje, um achocolatado cheio de açúcar não traz a suspeita que um pó proteico como whey protein costuma trazer. E de quem é a culpa?

Em parte, da própria indústria de suplementos alimentares, que por muitos anos focou seu marketing única e exclusivamente no ganho de massa muscular, hipertrofia e fisiculturismo. Há bem pouco tempo esse direcionamento começou a mudar. Os mesmos suplementos, antes embalados em potes com fotos de caveiras e atletas musculosos, agora têm rótulos e propagandas que remetem a boa saúde e qualidade de vida. Inclusive, o movimento de buscar corantes, aromatizantes e adoçantes naturais vem crescendo muito. A grande barreira ainda é o sabor. As pessoas querem suplementos gostosos e, nesse sentido, lógico que o artificial ainda vence disparado. Mas acredito que logo vamos ter no mercado produtos com ingredientes 100% naturais, com o mesmo sabor dos com ingredientes artificiais.

Os idosos também ainda não se convenceram dos benefícios da suplementação alimentar. Eles ainda enxergam creatina, glutamina, probióticos, vitaminas e minerais como algo medicamentoso. Produtos para serem usados apenas em situações patológicas e não como prevenção. Uma mudança nesse comportamento virá quando a geração que hoje tem 30, 50 anos de idade envelhecer. Como passaram boa parte da vida adulta tomando suplementos, na velhice a adesão será bem maior. Eu mesmo, hoje, tenho 36 anos de idade. Meu primeiro contato com suplementação alimentar foi aos 14 anos e nunca parei de suplementar. No início, de maneira totalmente errada, me encantava pelo rótulo ou pelo produto que prometia ganho rápido de massa muscular. Hoje, não imagino como seria a minha vida sem a suplementação alimentar, principalmente quando penso nos benefícios relacionados à qualidade de vida. Suplementos para melhorar a saúde articular, como colágeno tipo II, extrato de boswellia e, curcumina, substâncias com efeito na cognição, visando reduzir os riscos para doenças neuro-degenerativas (creatina, citicolina, alpha gpc, aswgandha, etc), além dos próprios suplementos proteicos. Com o envelhecimento, é muito comum a redução da ingestão de alimentos fonte de proteínas, portanto, os suplementos podem melhorar a qualidade de vida do idoso. Não só de vida, mas de morte também. Apesar de muitos evitarem até pensar nessa palavra, a morte é nossa maior certeza. Seja você rico, pobre, famoso, bonito ou feio, você vai morrer. Excluindo situações acidentais, podemos, sim, buscar uma morte com maior qualidade. Grande parte das doenças que podem causar um fim de vida ruim e doloroso pode ser evitada com uma boa nutrição, suplementação alimentar e atividade física. Hoje nós sabemos, mais do que nunca, dos benefícios dos pré e probióticos para a saúde intestinal, por exemplo. A glutamina também tem sua parcela de contribuição. A manutenção de uma adequada saúde intestinal ao longo da vida pode evitar doenças extremamente desagradáveis quando envelhecemos. Com o auxílio da correta nutrição/suplementação alimentar/atividade física, o idoso terá força muscular para executar tarefas básicas do dia a dia, sem necessitar de ajuda. O prolongamento da sensação de autoestima e da autonomia é fundamental para um envelhecimento saudável e feliz.

Uma curiosidade é que alguns suplementos que estão no mercado há muito tempo, já tiveram sua eficácia contestada algumas vezes, mas continuam sendo vendidos por terem tido outras aplicabilidades descobertas. Um ótimo exemplo é a L-carnitina. Ficou conhecida nos anos 1980 como auxiliar para a redução da gordura corporal. Nos anos 1990 pesquisas concluíram que esse benefício só seria válido em vegetarianos ou indivíduos que não consumissem carnes ou outros alimentos fonte de L-carnitina em sua alimentação. Nesses casos, a suplementação supriria uma deficiência. Mais alguns anos de pesquisas foram necessários até descobrirem que a L-carnitina tem ação antioxidante, potencializadora cognitiva e apresenta efeitos na melhora da performance em atividades de alta intensidade e curta duração. Depois de um tempo sumida, ela voltou a ter seu espaço nas prateleiras das lojas.

Enfim, a questão não é mais discutir a eficácia ou a utilidade da suplementação. O que precisamos é de profissionais cada vez mais preparados e de meios de comunicação que cumpram seu papel educativo, levando a verdade para a população. Todos podem se beneficiar do uso correto dos suplementos alimentares.

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