A COMUNICAÇÃO NUTRICIONISTA-PACIENTE
Francine Moterani Peres
3/6/202521 min read


Introdução
A digitalização do comportamento humano vem afetando a carreira de muitos nutricionistas de forma significativa. Em um mundo cada vez mais tecnológico e com tanta informação disponível, a habilidade para transmitir, receber e interpretar mensagens (verbais ou não verbais), de forma clara, pode ser uma das maiores qualidades de um profissional de saúde, e a ausência dela um grande problema.
A comunicação sempre foi um dos pilares da prática clínica. O esforço feito pelos nutricionistas para incentivar mudanças de comportamento (adoção uma de dieta mais saudável, praticar atividade física etc.) são atos comunicativos. A informação é recebida e processada pelo paciente através de prismas individuais (experiência anterior, crenças de eficácia, conhecimento, etc.) e macrossociais (relações interpessoais, padrões culturais, normas sociais, etc.). Quando o profissional se preocupa apenas com a transmissão da informação, corre o risco de negligenciar os processos ritualísticos envolvidos na comunicação.
Muito tem se falado sobre o modelo de atendimento centrado no paciente e sobre o processo de decisão compartilhada, que são, em essência, resultado de uma boa comunicação. Quando há um diálogo eficaz e uma relação de confiança, na qual o paciente se sente confortável para participar da tomada de decisão do seu próprio tratamento, a adesão à dieta tende a ser muito maior. Só uma comunicação efetiva pode transformar uma consulta clínica em um momento verdadeiramente transformador e terapêutico.
No entanto, ainda são poucos os estudos, teóricos e empíricos, voltados especificamente para o debate sobre a comunicação nutricionista-paciente. O ensino de comunicação nos cursos da área de saúde, de um modo geral, ainda é mais voltado para as diretrizes de perguntas a serem feitas, focando em habilidades de conteúdo que, muitas vezes, ignoram as habilidades processuais de comunicação. A maioria dos aspectos fundamentais para a consolidação de uma boa comunicação nutricionista-paciente não é contemplada na anamnese convencional, como ideias, preocupações, expectativas e outros componentes psicológicos e sociais relativos ao paciente.
A comunicação se torna mais humanizada e horizontal por meio de falas, perguntas abertas, posturas e gestos capazes de gerar empatia e acolhimento, minimizando os lugares de poder historicamente instituídos no relacionamento entre profissionais de saúde e pacientes. Quando o nutricionista está realmente ouvindo o paciente, aspectos sutis da comunicação se tornam aparentes. Emoções e atitudes que não são expressas diretamente podem ser percebidas, pelo tom de voz, a velocidade da fala, o piscar dos olhos, ajudam da detecção de sugestões não verbais.
O objetivo deste texto não é apresentar “técnicas infalíveis para melhorar sua comunicação com o paciente”, mas ajudá-lo a refletir sobre o tema e a construir o seu repertório de estratégias de intervenção. Quanto mais familiar e confortável for a abordagem, mais espontânea, flexível e efetiva será a sua interação com o paciente.
Sobre o que exatamente nós estamos falando?
A palavra comunicação vem do latim communicare, e significa "tornar comum", "partilhar", "conferenciar". Basicamente, comunicação é um processo que envolve um emissor, um receptor e a transmissão de uma mensagem. Contudo, esse relacionamento vai além de uma simples troca de informação e requer a compreensão do que foi transmitido. Em um primeiro momento podemos imaginar o comunicador como aquele que envia a mensagem, mas não é só isso. A comunicação é uma via de mão dupla.
Após a informação ter sido enviada é necessário que o comunicador perceba se ela foi ou não compreendida pelo receptor. Comunicação é a resposta que você desperta na outra pessoa. Por isso, o primeiro passo para desenvolver habilidades de comunicação na prática clínica, é substituir a relação distanciada com o paciente, por níveis mais profundos de acolhimento e vínculo (CERON, 2012).
As competências necessárias para uma boa comunicação podem ser ensinadas, e a prática contínua permite o seu aperfeiçoamento. Na área médica, alguns estudos reforçam essa afirmação:
habilidades de comunicação podem ser ensinadas e aperfeiçoadas (Hulsman et al., 1999; Henwood, Altmaier, 1996);
a qualidade da entrevista clínica e da relação entre profissional e paciente é amplamente dependente das habilidades do profissional para conhecer e manejar o processo de comunicação (Borrell, 2004; Wissow, Kimel, 2002; Rodríguez Salvador, 2001, Aspegren, 1999);
a qualidade da entrevista e da comunicação favorecem adesão ao tratamento e evolução (Aspegren, 1999; Bartlett et al., 1984);
Principais desafios da comunicação entre nutricionista e paciente
A herança médica
A construção do modelo biomédico, inicialmente adotado nas escolas de medicina, influenciou todo o desenho das disciplinas ensinadas no campo das ciências da saúde, incluindo a nutrição, o que justifica a dificuldade encontrada até hoje na implementação de uma abordagem mais humanista na prática clínica nutricional, sendo o nutricionista constantemente associado ao médico (FONTES, 1990).
Com relação à formação acadêmica, as noções sobre nutrição ainda valorizam sobremaneira o biológico, os alimentos e suas modificações físico-químicas, processos de preparação, requerimentos nutricionais, adequação da dieta, situação fisiopatológica específica. Essa abordagem da clínica-nutricional está intimamente relacionada ao processo de medicalização, que pode ser compreendido como a incorporação de terminologia e abordagem médicas para questões que muitas vezes são socioculturais, emocionais e econômicas (CASTIEL e DIAZ, 2007).
Scagliusi et al (2012) corroboram esse ponto de vista ao afirmarem que, no contexto da ideologia médica, é coerente que o paciente abandone seus sentimentos, valores e significados sobre a comida, para incorporar os novos alimentos apregoados pela racionalidade científica, sem história, sem gosto e desprovidos de memória, mas que o afastam do risco de doenças futuras, tornando essa escolha o aspecto mais importante na sua vida. Emerge, a partir dessa visão, a figura do “nutricionista policial”, que assume a incumbência de afastar o paciente do mau caminho.
A expectativa dos estudantes de vivenciar a prática clínica, e a forte preocupação com o mercado de trabalho, os levam a se interessar, preferencialmente, pelas atribuições dietéticas da profissão, em detrimento da reflexão sobre a sua identidade profissional, inclusive como educador. O nutricionista é um profissional de saúde e um educador, em qualquer área de atuação.
É urgente repensar a formação recebida pelos estudantes, no sentido de reforçar a necessidade de considerar a profissão nutricionista como de caráter também voltado para as ciências humanas e sociais, e não apenas biomédico, uma vez que o modelo tradicional vem se mostrando insuficiente para responder às complexas questões que envolvem esse campo (MENOSSI et al., 2005).
A interdisciplinaridade em cursos da área de saúde - entendida aqui como o processo de comunicação entre duas ou mais disciplinas – faz com que o aluno consiga olhar para um mesmo tema com um repertório acadêmico mais amplo. Em vez de uma visão fragmentada da prática clínica, o aluno adquire um saber multiprofissional, facilitando o diagnóstico e a direção do tratamento (CANESQUI e GARCIA, 2005).
O discurso da dietética
O termo discurso é um evento comunicativo específico e bastante complexo, pois envolve muitos atores sociais: quem fala, quem escreve, quem escuta, quem lê. São atores que intervêm no ato comunicativo, em uma situação específica (tempo, lugar, circunstância), determinados por outras características do contexto. Esse ato comunicativo pode ser escrito ou oral, usualmente combinam-se as duas coisas. Nessa perspectiva, o entendimento por ambas as partes envolvidas numa comunicação discursiva requer o envolvimento de um sujeito com a realidade do outro, com a cultura do outro, o que traz à tona a necessidade da aplicação desses conceitos à prática clínica da nutrição.
O profissional de nutrição define com o paciente o seu tratamento, e estudos demonstram que o tipo de tratamento influencia o nível de adesão. Condutas seguidas por um longo período e que interferem em outros aspectos da vida da pessoa possuem níveis mais baixos de adesão. A adesão é pequena (cerca de 20% a 50%), quando as pessoas são solicitadas a mudar hábitos pessoais arraigados, como tabagismo, consumo de álcool ou mudança de hábitos alimentares, enquanto que a adesão é alta (92%) quando a conduta a ser adotada é essencialmente médica e mais simples, como tomar um medicamento (TAYLOR, 1996)
Tais considerações levam ao questionamento sobre a eficácia, limites e contribuições do atual discurso normativo em nutrição, herdado da medicina clínica. Ele é essencialmente o discurso do poder atribuído pelo saber científico, que ignora outros tipos de saberes. O discurso normativo da dietética atua como um imperativo para o bem-estar do corpo, sem uma perspectiva integrativa do ser humano, como um ser complexo e constituído por inúmeras significações (COSTA,1999).
Não comemos apenas quantidades de nutrientes e calorias para manter o funcionamento corporal em nível adequado, pois há muito tempo os antropólogos descobriram que o ato de comer envolve seleção, escolhas, ocasiões e rituais, imbrica-se com a sociabilidade, com ideias e significados, com as interpretações de experiências e situações. Para serem comestíveis, os alimentos precisam ser elegíveis, preferidos, selecionados e preparados ou processados pela culinária, e tudo isso é matéria cultural (CANESQUI e GARCIA, 2005).
O paradigma biológico da nutrição desconsidera muitas variáveis das ciências sociais. O gosto e o paladar das pessoas não devem ser naturalizados, pois são construídos no emaranhado da história, da economia, da política e da própria cultura. Ou você acha que desde sempre as pessoas sempre contaram calorias e se preocuparam com a qualidade dos nutrientes dos alimentos?
O fato de as pessoas hoje terem mais acesso à informação, não significa que são capazes de fazer escolhas alimentares racionais e mais inteligentes. As escolhas alimentares são inculcadas desde a infância, pelas sensações táteis, gustativas e olfativas sobre o que se come, tornando-se pouco permeáveis ao discurso massificado da dietética. Nos dias atuais, por exemplo, ao prescrever uma dieta, é fundamental que o nutricionista entenda aspectos econômicos e culturais da pós-modernidade. O comprar, o cozinhar e o comer estão se transformando na era digital (ALBALA, 2017).
Técnicas pedagógicas de comunicação são fundamentais para o nutricionista aprender com seu paciente, permitindo a compreensão dos valores socioculturais que o paciente tem sobre o corpo, sua saúde e sobre a melhor forma de agir sobre o problema (FONTES, 1990).
Algumas pessoas, por exemplo, valorizam mais o reforço positivo no discurso, enquanto outras ficam com medo das consequências negativas. “Se você comer mais verduras terá esse e aquele benefício.” (reforço positivo) “Se não comer verduras poderá desenvolver essa ou aquela doença.” (reforço negativo).
Portanto, ouvir a história de vida do paciente, entender o que ele está passando, absorver as informações e poder transmitir o que é necessário para uma boa prescrição ou tratamento, devem ser práticas rotineiras em uma consulta. Quando o paciente não se sente seguro para conversar, dificulta o vínculo e a própria adesão à dieta. Não raro, ele recorre à Internet para tirar dúvidas, em vez de seguir o acompanhamento individualizado com o profissional.
Habilidades de comunicação: abordagem centrada na pessoa
Em se tratando de padrões de comunicação, verbal e não-verbal, podemos observar alguns problemas comuns na relação profissional-paciente: a incompreensão por parte do profissional sobre as palavras utilizadas pelo paciente para expressar seu sofrimento; falta ou dificuldade em transmitir informações adequadas ao paciente e a dificuldade do paciente na adesão à dieta.
A consulta clínica é um processo complexo que exige habilidades de comunicação específicas para torná-la mais eficiente. Três habilidades básicas podem ser facilmente identificadas nesse contexto: habilidade para comunicar o conteúdo da consulta; habilidade para desempenhar as tarefas da consulta e a habilidade para perceber os pensamentos e sentimentos envolvidos (COVAS; MOREIRA, 2013).
A humanização da comunicação na prática clínica coloca o paciente no centro, cada pessoa em sua singularidade, e a resposta de um paciente pode ser muito influenciada pela postura do profissional durante a consulta. Comunica-se melhor quem sabe escutar. É a escuta ativa que gera empatia e cria uma maior sintonia entre as partes envolvidas. Nesse sentido, é importante receber o paciente com um sorriso, demonstrar interesse enquanto ele fala, manter contato visual sempre que possível e usar um tom de voz mais tranquilo, para que ele se sinta à vontade durante a consulta.
O primeiro problema relatado pelo paciente nem sempre é o motivo real da consulta. O ideal é iniciar o atendimento com perguntas abertas, para que o paciente possa escolher o conteúdo das respostas e compartilhar informações de maior qualidade. As técnicas mais utilizadas nessa fase são: técnica de comunicação não verbal, perguntas abertas, encorajamento verbal curto, reflexões em espelho, silêncios, pistas verbais, paráfrases, linguagem positiva e escuta ativa (DOHMS e GUSSO, 2021).
O uso das competências comunicacionais, nesse momento, tem como objetivos obter a perspectiva do paciente e demonstrar empatia. A ideia é que o profissional “entre no mundo do paciente” e permita que ele explique o problema com suas próprias palavras, buscando compreender o significado e a importância das queixas na sua vida, assim como as suas expectativas de cuidado. (DOHMS e GUSSO, 2021)
A ideia preconcebida de que os pacientes “falam muito”, aliada à impaciência do profissional, é um entrave para uma boa comunicação, pois gera interrupções desnecessárias e perda de informações relevantes. O ideal é encontrar um equilíbrio entre incentivar a pessoa a falar e perceber qual o momento de interrompê-la. As interrupções devem ser feitas quando o paciente se desvia dos objetivos da consulta, sendo exceção e não regra.
É importante procurar entender a vivência individual, contextualizando as queixas relatadas no universo familiar, cultural e social do paciente. Perguntas como “Quais são as suas preocupações?” são estratégias eficazes para abordar as inseguranças e os medos do paciente. O profissional deve sempre demonstrar interesse e concentração na conversa. Atitudes como não olhar para o paciente, manipular o celular ou qualquer outro objeto durante a entrevista clínica transmitem desinteresse.
O paciente também deve ter espaço para refletir sobre o que está falando, se conectar com os próprios sentimentos, por isso é fundamental respeitar os “silêncios” que surgem naturalmente durante a consulta. Para o profissional, essas pausas podem ajudá-lo a pensar em aspetos que ainda não foram esclarecidos e reformular perguntas. Saber o que perguntar mostra-se verdadeiramente importante, uma vez que sem as perguntas certas é impossível conhecer o paciente, compreender os seus problemas e conduzir bem uma entrevista clínica. Assegurar que a linguagem usada é compreensível ao paciente é outro aspeto que não deve ser descuidado para garantir uma boa comunicação.
A atenção não crítica ao momento presente - incluindo emoções, pensamentos, sensações e estímulos externos - pode melhorar a comunicação nutricionista-paciente, na medida em que promove uma atitude de abertura, curiosidade, paciência e aceitação, permitindo ao profissional analisar seus pensamentos e reconhecer julgamentos que dificultam o processo de comunicação.
Estereótipos
Para muitas pessoas, o trabalho do nutricionista ainda está relacionado a uma representação sobre o que significaria “comer saudável” e, sobretudo, à ideia de que a meta do profissional é fazer as pessoas emagrecerem ou terem um corpo adequado aos padrões estéticos. Desse estereótipo é um pulo para que muitos entendam o nutricionista como aquele que prescreve dietas mágicas e truques definitivos para transformar o corpo, além de ditatorialmente definir o que se deve ou não comer.
Criar estereótipos, antecipando conhecimentos sobre o outro, faz parte do modo como o ser humano conhece o mundo. Por isso, lembre-se que a realidade pode ser totalmente diferente para duas pessoas que estão no mesmo lugar, no mesmo tempo, vendo, ouvindo, sentindo e tocando as mesmas coisas. Nutricionistas são seres humanos que também vivenciam estereótipos, no sentido de construção da realidade sobre os outros. Pressuposições sobre os pacientes prejudicam a comunicação e fazem com que os estereótipos se perpetuem, diminuindo a qualidade do vínculo comunicacional.
Você não tem a obrigação de gostar de todos os pacientes, mas, durante a consulta, é preciso ter reflexão, autocrítica e uma percepção real do outro para manter o estereótipo em suspenso, e permitir a emergência do paciente tal como ele é. Queixas generalizantes, como: “ele não entende nada”, “não gosta de se cuidar”, “não adianta falar, pois não segue à dieta”, devem ser vistas com muito cuidado. O profissional precisa avaliar suas pressuposições, para não potencializar o chamado efeito halo, segundo o qual o estereótipo invade tudo o que o paciente faz.
O conceito de profecia autorrealizada explicita exatamente essa situação. A sua crença de que algo ou alguém é de uma certa forma, muitas vezes, é justamente o que acaba fazendo com que aquele algo ou alguém seja daquela forma. As pessoas tendem a agir conforme as "etiquetas" que colocamos nelas, e isso impede a construção de um processo comunicativo de qualidade. Então é fundamental refletir sobre a sua história de vida e identificar a origem dos sentimentos e estereótipos que rondam a consulta.
Pensando em possíveis soluções para esse problema, algumas estratégias podem ser interessantes. Nas situações em que o paciente causa algum tipo de incômodo e irritabilidade, o profissional pode procurar aspectos positivos nele, exercitando um olhar mais compreensivo. Também é fundamental analisar a contratransferência, ou seja, avaliar os sentimentos e sensações que a paciente desperta em você, e que podem fazer mais parte da sua história de vida do que do próprio contexto do encontro (ZAMBELI, 2013).
Comunicação não verbal
Um componente muito importante da atividade comunicativa é seu aspecto não verbal. Os pacientes revelam muitas informações pela linguagem corporal. No entanto, quando todos os meios de comunicação parecem congruentes, ou seja, quando as palavras que dizemos, o modo como dizemos e o nosso corpo dizem todos a mesma coisa, não damos tanta importância à linguagem não verbal (SILVA, et.al, 2000)
Segundo Birdwhistell (1985) "apenas 35% do significado social de qualquer interação corresponde às palavras pronunciadas, pois o homem é um ser multissensorial que, de vez em quando, verbaliza".
A comunicação não verbal, entendida como ações ou processos que têm significado para as pessoas, exceto a expressão verbal, é classificada por KNAPP (1980) em: paralinguagem (modalidades da voz), proxêmica (uso do espaço), tacêsica (linguagem do toque), características físicas (forma e aparência do corpo), fatores do meio ambiente (disposição dos objetos no espaço) e cinésica (linguagem do corpo).
A paralinguagem é um pano de fundo contextual e indica o que está sendo comunicado. Ela permite identificar outros aspectos relacionais da linguagem, por exemplo, o idioleto, um conjunto de signos que possibilita reconhecer sexo, idade, nível socioeducacional, etc., relacionando-se diretamente com a forma pela qual as palavras são pronunciadas e com o vocabulário utilizado na comunicação. Com base na percepção das inflexões da voz ainda é possível transmitir e identificar emoções, como ansiedade, tensão, segurança etc.
Todos nós temos uma identidade vocal: altura, velocidade, postura, dicção. Não é sobre ter uma voz bonita, mas em como utilizá-la para que a mensagem a ser transmitida atinja seu objetivo da maneira mais precisa.
A proxêmica representa o modo como utilizamos o espaço e as questões relacionadas à territorialidade. A maneira como sentamos à mesa, o grau de aproximação do paciente, o contato corporal, o aperto de mãos, a utilização do olhar e a angulação do corpo podem denotar sinais de aceitação, rechaço, ou mesmo relações de poder.
Considerando que a capacidade de ouvir e compreender o outro inclui não apenas a fala, mas também as expressões e manifestações corporais como elementos fundamentais no processo de comunicação, a cinésica, ou seja, o estudo da linguagem corporal, assume um papel importante na decodificação das mensagens recebidas durante as interações profissionais ou pessoais. O corpo é um centro de informações. Um observador atento consegue ver no outro quase tudo aquilo que ele está escondendo - conscientemente ou não. Assim, tudo aquilo que não é dito pela palavra pode ser encontrado no tom de voz, na expressão do rosto, na forma do gesto ou na atitude do indivíduo (GAIARSA, 1985).
Um exercício interessante para identificar possíveis deficiências na sua comunicação não verbal com o paciente é filmar algumas consultas. Ao “se ver de fora” fica mais fácil avaliar sua linguagem corporal. Para onde você olha enquanto o paciente fala? Qual a posição do seu corpo? Qual a expressão do seu rosto? Está falando muito alto, muito baixo? A autoconsciência para nossos sinais exteriores e interiores pode ser treinada, e é uma competência cada vez mais importante, tendo em vista a nova dinâmica das relações virtuais.
Tomada de decisão compartilhada
O compartilhamento de informações começa com a percepção, pelo profissional, sobre o quanto o paciente está preparado para receber as informações (mais relacionado com aspectos cognitivos) e o quanto ele deseja saber sobre sua condição (aspectos emocionais). Isso aumenta a efetividade da comunicação e a assertividade da prescrição (DOHMS e GUSSO, 2021). Inicialmente, o profissional deve fornecer à pessoa todas as informações fundamentais para que ela possa ter entendimento aceitável sobre a sua condição atual, tanto no contexto clínico quanto social. O enfoque da informação muda de acordo com o problema apresentado pela pessoa. Em todas as consultas, é necessário que o profissional identifique quais informações o paciente deseja, para que elas sejam sempre respondidas.
O profissional também deve entender as reais expectativas do paciente. Se as expectativas não forem atendidas ou muito bem acordadas, provavelmente não haverá adesão à prescrição dietética. No processo de decisão compartilhada, o profissional oferece opções de tratamento com base nas melhores evidências científicas, e faz com que o paciente participe ativamente da elaboração do seu planejamento alimentar, se comprometendo com mudanças em seu estilo de vida.
O nutricionista deve ter flexibilidade para adequar o tratamento à rotina e aos hábitos do paciente, mesmo que a prescrição fique aquém da ideal. Nessa etapa, é fundamental que o profissional e o paciente consigam estabelecer um relacionamento sincero e aberto, e que as expectativas, ideias e crenças relacionadas à proposta estejam claras. É útil fornecer materiais escritos, esquemas, desenhos, indicar filmes, vídeos, podcasts e outros meios, para aumentar o entendimento do paciente e motivá-lo a aderir ao plano proposto.
Feedback
No âmbito da comunicação, feedback diz respeito à informação que o emissor obtém da reação do receptor à sua mensagem, e serve para avaliar os resultados da transmissão. Em uma consulta, é interessante que o profissional sempre peça uma devolutiva do paciente sobre o seu entendimento a respeito do que foi tratado no encontro. Se necessário, repita ou esclareça alguma informação ou procedimento que possa não ter ficado muito claro, e sempre confirme com o paciente se existe alguma dúvida.
A última fase da consulta é a que vai estabelecer o entendimento do paciente sobre o que foi conversado e acordar os próximos passos. É importante que o profissional indique para o paciente que o encontro está chegando ao fim, e faça um resumo ou uma sumarização de tudo o que foi acordado, para confirmar a compreensão das informações e o entendimento do paciente.
Se nessa fase final da consulta o paciente apresentar demandas aditivas, cabe ao profissional pontuar, com muita paciência, algo como: “Isso que você está me contando agora é muito importante, e merece ser analisado com mais tempo. Como o nosso tempo hoje acabou, o que acha de já marcarmos a próxima consulta?”. É muito importante ser realista com os pacientes, mas sem desorientá-los, desampará-los ou desmotivá-los. Lembre-se: o paciente que sai de uma consulta com a sensação de ter sido bem atendido, tem uma chance muito maior de retornar ao consultório.
Considerações finais
O ensino da comunicação e as leituras sociológicas sobre alimentação estão marginalizadas da formação dos nutricionistas. Embora a construção da interdisciplinaridade não seja consenso nas universidades, hoje existem muitas possibilidades de interlocução entre os diferentes campos disciplinares no âmbito da pesquisa.
Não se pretende com essa discussão, desconsiderar a relevância de uma alimentação balanceada que atenda às necessidades nutricionais. A nutrição adequada e a "boa saúde" são objetivos nutricionais importantes, entretanto, não devem ser tomados como objetivos únicos, uma vez que a abordagem biológica da nutrição apresenta limitações significativas e premissas que ainda precisam ser discutidas.
Parece necessário repensar o modelo vigente na clínica nutricional. Vimos que as ferramentas da comunicação podem ser utilizadas pelo profissional nutricionista, para ampliar sua capacidade de perceber as mensagens implícitas ou explícitas, que permeiam sua relação com paciente. Quando há uma relação eficaz e de confiança, na qual o paciente está bem informado e participa ativamente da tomada de decisão, a sua adesão ao plano proposto tende a ser maior.
Para que a dieta não se torne um instrumento de opressão, também é de fundamental importância que os nutricionistas compreendam o seu papel como educadores. A educação nutricional se mostra como a estratégia mais eficiente na prática clínica nutricional, na medida em que faz o paciente assumir sua responsabilidade no processo, construído a partir de uma relação de troca com o saber profissional.
Para tanto, o nutricionista precisa estar inclinado a perceber “além do visível”. Não se apropriar apenas do olhar clínico imediato, mas estar disposto a enxergar uma verdade não evidenciada pelo paciente. A relação “sujeito-sujeito” na comunicação, entre nutricionista e paciente, permeada por um discurso mais humano e menos pragmático, parece promover uma atenção nutricional mais efetiva.
É claro que nenhuma estratégia de comunicação vai funcionar com todos os pacientes. Assim como o plano alimentar deve ser individualizado, nutricionistas eficientes devem possuir várias estratégias de comunicação e escolher aquela que será mais efetiva para cada momento e pessoa.
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