SEGREDOS DO SUCESSO NO CONSULTÓRIO
Ter seu próprio consultório é o sonho da maioria dos que escolhem a Nutrição como carreira.
Rodolfo Peres
3/6/20258 min read


Trabalhar diretamente com o paciente, ajudando-o a conquistar seus objetivos, traz uma enorme satisfação profissional, mas o que estudantes e recém-formados de fato ambicionam é a possibilidade de ter um ótimo retorno financeiro e mais tempo livre. Afinal, sendo dono do consultório, você poderia escolher os dias da semana e os horários que quer trabalhar. Será que a realidade é tão simples quanto parece?
Quando me formei, no início dos anos 2000, o mercado de trabalho para nutricionistas era bem diferente. Viver só com o lucro do consultório era uma missão quase impossível. Os nutricionistas mais conhecidos eram professores que, uma ou duas vezes na semana, abriam a agenda para complementar a renda. E por que faziam isso? Simples! Porque não havia procura.
Sabendo disso, recém-formado, nem passava pela minha cabeça ter o meu próprio consultório. O que eu queria (e fui atrás) era atender em um espaço pouco explorado na época, mas cheio de possíveis pacientes: as academias de ginástica. E foi o que fiz durante cinco anos. Só decidi montar um consultório porque, com o passar do tempo, o trabalho nas academias deixou de valer a pena. Financeiramente falando. Os donos das academias cobravam cada vez mais caro pela utilização do espaço. Quanto maior a procura pelos meus serviços, maior o aluguel da sala. A situação chegou a um ponto em que eu pagava três vezes mais do que gastaria em um consultório próprio.
Para um nutricionista esportivo, o ambiente de uma academia de ginástica é perfeito. Todo aluno necessita de um nutricionista. Para citar um exemplo, em uma academia com mil alunos, se 10% deles se consultar, você já consegue uma agenda excelente. Ainda hoje, trabalhar em academias é uma ótima possibilidade para quem está começando a atender. No meu caso, a mudança só foi viável porque, ao longo de cinco anos, conquistei pacientes que continuaram passando em consulta comigo, independentemente do meu local de trabalho.
Mesmo que você contrate uma consultoria, construa um plano de marketing muito bem feito, ainda acho arriscado iniciar a carreira em um consultório próprio. O investimento só valerá a pena se você tiver dinheiro sobrando ou uma rede de contatos para indicações muito bem estabelecida, envolvendo médicos, treinadores, psicólogos e outros profissionais. Caso contrário, trabalhar em uma clínica multiprofissional ou em academias pode ser muito mais interessante. Ter um consultório é empreender, e isso não é nada fácil!
O maior inimigo do recém formado é a ansiedade. A maioria não entende que leva tempo para ter uma agenda cheia. Mais tempo ainda para conseguir administrar uma agenda cheia. Hoje, o seu sonho é atender 10, 12 pessoas por dia, mas, seja sincero, você conseguiria atender com qualidade 10, 12 pessoas por dia? A agilidade e a eficiência no atendimento só vêm com a prática. Por melhor que seja a estrutura da sua clínica ou por mais brilhante que você tenha sido como aluno, só depois de atender centenas ou milhares de pessoas terá expertise para dar conta de um alto volume de consultas.
Avaliando toda a minha trajetória e a de colegas que conquistaram a sonhada agenda cheia, percebo uma característica em comum, que não tem a ver com estratégias de marketing ou sorte. Em qualquer área essa característica é necessária, mas é muito mais difícil para um profissional liberal. Estou falando da imposição de uma rotina diária de trabalho. Lembra no início, quando falei sobre a liberdade de tempo ser uma das motivações para a pessoa querer montar um consultório? Pois essa crença de ter um consultório próprio para atender três dias na semana ou só meio período, pode ser o começo do fim da sua carreira.
Quer saber por que muitos profissionais não conseguem sucesso no consultório? Porque programam sua rotina de trabalho de acordo com a demanda atual, e não com a procura que desejam atingir. Minha sugestão para quem está começando é, desde o início, estabelecer uma rotina como se tivesse a agenda lotada, independentemente de quantos pacientes estão agendados.
Tem só um paciente no dia, marcado às 10h ou às 16h? Não importa. Você vai para o consultório às 7h e vai ficar até às 19h, partindo do princípio que o seu objetivo é atender 8 ou 10 pacientes por dia. Se o seu objetivo é dedicar uma parte do tempo para outras atividades, diminua a carga horária do consultório, mas tente manter uma rotina idêntica todos os dias, semana após semana.
A diferença entre os que vão conseguir e os que vão desistir, está exatamente naquele dia ou semana que a procura está baixa, mas você não muda a rotina. E o que fazer nesse tempo livre sem pacientes? Fortalecer a sua mente, a sua rede de contatos e estudar. Quando comecei a atender não tinha a moleza de redes sociais para divulgar o meu trabalho. Eu usava os horários livres para oferecer meus serviços para aqueles que poderiam, futuramente, indicar meu trabalho: treinadores, médicos e atletas, por exemplo. Como atendia em uma academia, nos horários de maior movimento, fazia questão de estar em pontos estratégicos com a agenda na mão, explicando para os alunos quais os benefícios da Nutrição para a atividade física.
E foi justamente nessa fase que comecei minha carreira como palestrante. Oferecia palestras de graça para grupo de 5, 10 alunos, na sala de ginástica. Eles sentavam naquelas plataformas de step e eu, sem qualquer recurso áudio visual, explicava o que sabia a respeito de nutrição e suplementação esportiva. Esse foi meu treinamento para, anos depois, conseguir palestrar em todas as capitais do Brasil e em diversos países. Tudo tem um início. E falando em início, uma das decisões mais assertivas da minha carreira, foi assim que me formei, já ingressar em uma pós-graduação em Nutrição Esportiva. Algumas pessoas cometem o equívoco de achar que é uma especialidade direcionada apenas para atletas, mas na realidade, sempre enxerguei a Nutrição esportiva como aquela que cuida de todas as pessoas que necessitam praticar exercício físico por algum motivo. Ou seja, todas!
A concorrência no segmento de serviços de saúde aumenta a cada dia. Diante desse cenário competitivo, a atração de pacientes depende essencialmente de um planejamento para promover a visibilidade do seu trabalho. A definição do público-alvo possibilita o desenvolvimento de estratégias para atingir e atrair esse público. Você pode adaptar o que eu fiz, há quase 20 anos, mantendo os mesmos fundamentos. Você precisa ser visto. E hoje não há melhor lugar para isso do que as redes sociais. Use seus horários livres para elaborar conteúdos para o Instagram, Tiktok, Youtube e outras mídias digitais. Só não esqueça de definir o seu público. Qual o seu objetivo? Se for atrair pacientes para o consultório, não adianta escrever artigos com linguagem científica, que só profissionais da área vão entender. Elabore seus textos, vídeos e ebooks de maneira didática e coloquial. E lembre-se: o conteúdo deve ser direcionado para um contato externo, que pode ser o Whatsapp do seu consultório, por exemplo.
Imaginando que tudo deu certo e a sua agenda está cheia de pacientes. O grande desafio será manter a mesma rotina de estudos, elaboração de conteúdo e dar conta de todos os atendimentos. É fundamental reservar horários em sua agenda para o estudo, que pode ser, por exemplo, a leitura de um artigo científico por dia. Definir determinado horário para elaboração de conteúdo e outro para interagir nas redes sociais, sem esquecer do tempo para a realização do pós-consulta, que consiste em responder e-mails ou mensagens de pacientes com dúvidas. Se não tiver uma rígida disciplina diária, você pode até conseguir encher a sua agenda, mas dificilmente vai conseguir mantê-la assim.
Nos últimos anos, a minha rotina é organizada da seguinte maneira:
Acordo às 6h, para estar no consultório, no máximo, às 7h. O primeiro horário reservo para estudar. Atendimento das 8h às 12h. Entre 12h e 13h, faço o pós-consulta. Entre 13h e 17h retomo os atendimentos. Das 17h às 19h vario entre pós-consultas, estudo e reuniões. Entre 19h e 22h atividade física, incluindo nesse intervalo o tempo de deslocamento para a academia. Entre 22h e 24h, descanso, sempre com a leitura de algo não relacionado a Nutrição. Das 24h às 6h sono.
Alguns devem ter sentido falta do intervalo para o almoço. Particularmente, exceto para quem tem a oportunidade de almoçar na companhia da família, acho um desperdício de tempo. Devemos nos alimentar adequadamente a cada três horas e, fazendo isso da maneira adequada, não precisamos de descanso após o almoço. Diferente daquele que se alimenta mal e sente uma enorme preguiça depois de comer um prato pouco nutritivo e sobremesas açucaradas. A cada três horas paro 15 minutos para me alimentar, distribuindo minha ingestão calórica de acordo com meu gasto energético.
Apesar de seguir essa rotina há muito anos, não a considero ideal. Minha meta é aumentar o período de sono para 8h diárias. Inclusive, há pouco mais de um ano, eu acordava as 4h30 para conseguir encaixar duas sessões de exercícios no dia. Esse descanso precário, associado a uma atividade física intensa, resultou em uma séria lesão, e tive que passar por um delicado procedimento cirúrgico. Portanto, a minha rotina de trabalho não deve ser uma referência, longe disso, mas serve para ilustrar a importância da disciplina. Procure organizar sua agenda de acordo com os seus objetivos e, claro, com a sua prioridade nesse momento. Se você definir que vai trabalhar apenas quatro horas por dia, que sejam quatro horas produtivas.
Hoje temos um grande sabotador do tempo, que passa 24 horas do dia em nossa companhia, o smartphone. Limitar os horários de uso das plataformas digitais é fundamental. Acordar já olhando as mensagens no Whatsapp ou ir dormir buscando bobagens no Instagram, sem dúvida, não vai agregar nada na sua vida. Reserve horários específicos para essas distrações, evitando conciliá-las com momentos de trabalho, refeições, descanso, atividade física e, principalmente, o tempo com a família. Se você seguir à risca sua rotina de atividades do mundo real, nem vai lembrar de bisbilhotar a vida dos outros na internet.
Outra dica que considero importante é tentar ser o profissional da família. Durante a consulta, não perca a chance de saber sobre o meio em que a pessoa vive. Estimule o paciente a indicar o seu trabalho para os familiares. O atendimento fica muito mais interessante, tanto para o profissional quanto para os pacientes. Isso gera uma interação incrível e a chance de sucesso do acompanhamento tende a ser muito maior. Imagine uma casa onde todos têm o mesmo objetivo, ou seja, a busca por uma vida mais saudável.
Por falar em indicação, se tem uma coisa que não mudou nos últimos anos, mesmo com toda evolução tecnológica, é o marketing boca a boca. Para que ele aconteça, hoje, é preciso fornecer um atendimento surpreendente, capaz de fazer o paciente comentar sobre sua experiência com amigos, conhecidos e até desconhecidos. As pessoas estão mais conectadas, recebem mais informações, influenciam e são mais influenciadas pela opinião dos outros. Portanto, não basta ter um ótimo consultório ou saber tudo sobre prescrição de dietas, é preciso entender as necessidades do paciente, físicas e emocionais, e oferecer a ele uma experiência memorável.